A arte de não quebrar o vidro
Nós, reles mortais, praticamos a Gestão de Riscos todos os dias. Você olha para os dois lados antes de atravessar a rua. Você sai de casa com um guarda-chuva quando o céu está com aquela cor de chumbo. Você não deixa a panela de pressão no fogo e vai dar uma voltinha no bairro. Instintivamente, nós tentamos evitar o desastre.
Mas, por algum motivo fascinante, quando o assunto é política pública, o Estado adora abraçar o caos e fingir surpresa.
Pense no funcionamento de um laboratório. Ninguém em sã consciência montaria um experimento complexo deixando os equipamentos equilibrados de qualquer jeito. A regra é clara: a bureta precisa ficar presa no suporte universal com uma mufla. É um detalhe simples, estrutural, que garante que o vidro não caia, o líquido não derrame e o laboratório não vá pelos ares. Essa presilha é a essência da Gestão de Riscos.
Nas políticas públicas, o governo costuma montar o experimento da nossa saúde e do meio ambiente deixando a bureta solta na beirada da mesa.
Todo mês de janeiro, chove. Todo ano. É um evento cósmico inegável. E, logo em seguida, os casos de dengue disparam. No inverno, o ar seca, a poluição estaciona e as emergências lotam de crianças precisando de inalação. Nada disso é surpresa, mas o roteiro oficial é sempre o mesmo: decreta-se estado de calamidade, compram-se remédios a toque de caixa e todos fazem cara de espanto para as câmeras.
Aplicar a Gestão de Riscos no governo não é ser pessimista, é simplesmente "prender a bureta no suporte". É o entendimento de que investir em saneamento básico hoje sai imensamente mais barato do que pagar por internações hospitalares amanhã. É preservar as matas ciliares e as áreas verdes urbanas não apenas por amor às árvores, mas porque o asfalto derretendo a 40 graus adoece a população e sobrecarrega a rede elétrica.
Boas práticas de gestão exigem que a gente pare de enxugar gelo. Uma política pública baseada em riscos mapeia o perigo, antecipa o estrago e age antes que a conta chegue.
É hora de o Estado parar de comprar vassouras superfaturadas para varrer os cacos de vidro do chão e começar a investir na presilha que segura a estrutura. A saúde pública e o meio ambiente agradecem, e os nossos nervos também.







